A Organização Latino-Americana de Energia e o CAF apresentaram, em São Paulo, os resultados da Fase V do Projeto Regional de Integração Gasífera dos países do Mercosul e do Chile, que projeta intercâmbios regionais de até 70 milhões de metros cúbicos por dia (MMm³/dia) de gás natural, investimentos superiores a US$ 25 bilhões e benefícios econômicos regionais de até US$ 2 bilhões anuais.
| Foto: Divulgação OLACDE |
A Organização Latino-Americana de Energia (OLACDE) e
o CAF – banco de desenvolvimento da América Latina e do Caribe realizaram
em São Paulo, no dia 28 de maio, o encontro “Integração gasífera no
MERCOSUL + Chile: rumo a um mercado regional”, que reuniu representantes de
governos, empresas do setor energético, órgãos reguladores e organismos
internacionais da região.
Em diferentes sessões técnicas de
trabalho, com a participação de atores do setor público e privado da
região, a OLACDE apresentou 10 rotas de integração regional que
conectam centros de produção e consumo de gás natural na Argentina, Brasil,
Bolívia, Chile, Uruguai e Paraguai. As alternativas contemplam
ampliações e reforços no Gasoduto Norte, GasAndes, Gasoduto Centro-Oeste, GNEA,
Tratayén–La Carlota, conexões via Uruguaiana, Duque de Caxias–Taubaté,
Siderópolis–Porto Alegre e San Jerónimo–Porto Alegre, além de projetos vinculados
ao Gasoduto Bioceânico e novas conexões regionais entre Argentina, Bolívia e
Brasil. As iniciativas analisadas envolvem aproximadamente 6 mil
quilômetros de gasodutos e mais de 1 milhão de HP de potência de compressão,
com investimentos estimados entre US$ 500 milhões e US$ 5 bilhões por rota,
superando em conjunto os US$ 25 bilhões.
As projeções destacam a complementaridade
entre a expansão de Vaca Muerta e o desenvolvimento do Pré-Sal brasileiro,
juntamente com o crescimento esperado da demanda de gás em mercados como São
Paulo, o Centro-Oeste e o Sul do Brasil. As simulações realizadas mostram que,
com a infraestrutura adequada, os fluxos de exportação regional poderiam
alcançar entre 35 e 40 MMm³/dia nas condições atuais de demanda e superar os 60
MMm³/dia em cenários de expansão regional.
Da mesma forma, uma maior
integração permitiria reduzir custos de abastecimento, ampliar exportações
regionais, otimizar a infraestrutura existente e diminuir a dependência de
importações de GNL, óleo diesel e eletricidade. O projeto também
identifica oportunidades para impulsionar indústrias intensivas em gás natural,
como a produção de fertilizantes nitrogenados, a indústria siderúrgica e a
geração elétrica de base, particularmente em corredores como o bioceânico
vinculado ao Chaco paraguaio, onde se projeta uma demanda inicial de 4 MMm³/dia
com potencial de expansão.
Durante a abertura, o chefe de
Assessoria Estratégica da OLACDE, Guido Maiulini, destacou: “Em um cenário
internacional cada vez mais volátil e incerto para os mercados energéticos, a
América do Sul tem uma oportunidade histórica de avançar rumo a uma integração
mais profunda, baseada em infraestrutura, mas também em coordenação regional,
convergência regulatória e mecanismos que permitam ampliar o comércio de gás
entre os países. Estamos falando de intercâmbios regionais de gás de até US$ 5
bilhões por ano e de uma carteira de projetos de investimento superior a US$ 25
bilhões. Isso não apenas fortalecerá a segurança energética, como também gerará
uma energia mais competitiva, acessível e sustentável para nossas indústrias e
nossas famílias.”
Em sua avaliação, o diretor do
Departamento de Gás Natural do Ministério de Minas e Energia (MME) do Brasil,
Marcello Gomes Weydt, afirmou: “A Integração gasifera é estratégica para os
países que buscam não apenas monetizar seus recursos energéticos, mas também
fazer com o preço do gás natural chegue a valores competitivos ao consumidores.
Dessa forma, poderemos impulsionar efetivamente o desenvolvimento
econômico regional por meio do aumento da competitividade das indústrias
intensivas em energia, e esse é o caminho que o Brasil está seguindo”.
Por sua vez, Juan Carlos Elorza,
diretor de Análise Técnica e Setorial do CAF, afirmou que “hoje o
desafio já não é pensar projetos nacionais de forma isolada, mas avançar para
uma arquitetura regional capaz de construir um mercado de gás em todos os
sentidos. E isso não é construído apenas por um banco: constrói-se com
informação, instituições e diálogo entre aqueles que produzem, transportam e
consomem energia, gerando também as condições necessárias para atrair
investimentos de longo prazo. Por isso, no CAF promovemos estudos e
espaços de diálogo que permitam transformar essa visão em ações concretas”.
Da mesma forma, a diretora
Executiva de Gás Natural do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Sylvie
D’Apote, destacou: “A possibilidade de contar com múltiplas fontes de
suprimento e uma maior interconexão regional fortalece a resiliência dos
sistemas energéticos diante de choques internacionais, climáticos ou de oferta.
Além disso, o gás natural tem um papel estratégico para complementar o
crescimento das energias renováveis e acompanhar a transição energética da
região.”
Resultados
Os resultados indicam que a
viabilidade de vários corredores também depende de contratos firmes de longo
prazo e de condições regulatórias capazes de gerar previsibilidade e atrair
investimentos para o desenvolvimento da infraestrutura regional. Nesse
contexto, foram abordadas questões relacionadas ao trânsito regional de gás na
Bolívia, à redistribuição do transporte e às novas tarifas na Argentina,
além de diferentes mecanismos de flexibilização tarifária e utilização de
infraestrutura já amortizada. Variações nas tarifas de transporte e nas
condições regulatórias podem modificar significativamente a competitividade das
diferentes rotas regionais e os fluxos de intercâmbio entre os países.
Por fim, foram apresentados diferentes
cenários de integração regional cujos resultados indicam que, sob
condições de maior flexibilização tarifária e aumento da demanda regional, os
países do Mercosul e Chile poderiam alcançar intercâmbios regionais entre 60 e
70 MMm³/dia de gás natural, totalizando um valor estimado próximo de US$ 5
bilhões por ano. Os benefícios regionais agregados, incluindo
economias nos custos de abastecimento e receitas de trânsito, poderiam
situar-se entre US$ 900 milhões e US$ 2 bilhões anuais, dependendo do cenário
analisado.
O estudo conclui que uma
maior integração regional fortaleceria a segurança energética do Cone Sul,
reduziria a exposição da região a choques externos nos mercados energéticos e
criaria condições para acompanhar os processos de transição energética e
desenvolvimento industrial da região.
O encontro foi concluído com quatro
painéis abertos ao público dedicados ao papel da integração gasífera no
contexto geopolítico global e da segurança energética regional, às mudanças
regulatórias necessárias para avançar rumo a um mercado regional de gás
natural, à estrutura da cadeia e à distribuição de riscos para viabilizar
investimentos de longo prazo, e ao papel da demanda brasileira na consolidação
de um mercado regional mais integrado.
Representantes de governos, empresas do
setor, órgãos reguladores e especialistas internacionais coincidiram na
necessidade de fortalecer a coordenação técnica e regulatória, gerar
previsibilidade para atrair investimentos e avançar em mecanismos que permitam
ampliar os intercâmbios regionais e fortalecer a segurança energética do Cone
Sul em um cenário internacional marcado por crescente incerteza sobre
os fluxos energéticos globais.


