Denúncia de fraude em eleição leva Sicoob à mira da PF

 O pedido já foi encaminhado ao Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG) e ao Ministério Público Federal (MPF)

A eleição para a composição da cúpula de uma cooperativa de crédito de Conselheiro Pena, no interior de Minas Gerais, tornou-se alvo de questionamentos judiciais após denúncias de supostas irregularidades no processo eleitoral. A ação já protocolada, aponta possíveis fraudes na votação, realizada de forma semipresencial com o auxílio de aplicativo, além de baixa divulgação do pleito, o que, segundo os denunciantes, comprometeria a participação de cooperados não envolvidos no suposto esquema.

Documentos e manifestações aos quais o Jornal de Brasília teve acesso indicam que a atual diretoria da Sicoob Credicope, presidida por José Eustáquio de Vasconcellos, estaria se mantendo no comando da instituição por meio de práticas irregulares. Diante das suspeitas, os denunciantes solicitaram o adiamento da próxima eleição, marcada para terça-feira (23). O pedido já foi encaminhado ao Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG) e ao Ministério Público Federal (MPF), que determinou à Polícia Federal a abertura de inquérito para apurar os fatos.

Segundo a denúncia, o suposto esquema de fraude envolveria a utilização de celulares corporativos antigos que permanecem logados em diversas contas do aplicativo Sicoob Moob, plataforma utilizada para o registro dos votos. Os aparelhos que deveriam ser recolhidos para substituição seriam mantidos em circulação e utilizados por pessoas ligadas à cooperativa para registrar votos em favor da chapa da situação.

De acordo com os relatos, muitos desses dispositivos possuem cadastradas várias contas de cooperados, incluindo integrantes de uma mesma família ou grupos de amigos. Mensagens obtidas pela reportagem mostram que um ex-funcionário contratado pela direção da cooperativa teria admitido que “cada celular desse vota três ou quatro”. Até o momento, cerca de 200 aparelhos antigos teriam sido identificados como parte do esquema. Ainda segundo os denunciantes, diversos votos teriam sido registrados em nome de cooperados que sequer teriam conhecimento de sua participação no processo eleitoral.

As mensagens que embasam as acusações foram registradas em atas notariais lavradas nos dias 10 e 15 de junho em um cartório de Conselheiro Pena. A denúncia sustenta que o sistema utilizaria dados cadastrais e contas de cooperados com pouca familiaridade com os canais digitais da cooperativa, tornando mais difícil a identificação de acessos indevidos. Os denunciantes também afirmam que não houve divulgação adequada da Assembleia Geral Eleitoral marcada para terça-feira, responsável por definir a diretoria que comandará a instituição até 2030.

Outro elemento apontado como indício de irregularidade é a diferença entre o número de votantes nas duas últimas eleições e os pleitos anteriores. Conforme os dados apresentados, houve redução da presença física de cooperados nas Assembleias Gerais Eleitorais, ao mesmo tempo em que o total de votos registrados cresceu mais de 400% em relação a 2024, quando foram contabilizados 238 votantes. Em novembro de 2025 e março de 2026, já sob o modelo híbrido, os números aumentaram significativamente. Em março deste ano, por exemplo, foram registrados 1.329 votos, o que representa crescimento de 558%.

As cooperativas de crédito têm como objetivo oferecer acesso a crédito de forma mais acessível e econômica para grupos de pessoas, geralmente vinculadas a setores produtivos de uma mesma região, especialmente o agropecuário. Além de administrar aplicações financeiras sem foco exclusivo no lucro, essas instituições desempenham papel importante no financiamento de atividades econômicas e na oferta de capital de giro para produtores e empresários. Fundada na década de 1980, a Sicoob Credicope conta atualmente com 19 agências físicas, distribuídas entre Conselheiro Pena, Vale do Aço, Belo Horizonte e outras localidades, além de uma agência digital.

A reportagem tentou contato com José Eustáquio de Vasconcellos por meio dos telefones vinculados a seu cadastro na Receita Federal e também por intermédio das agências da Credicope, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O Jornal de Brasília também aguarda posicionamento do Sicoob, em âmbito nacional, e da própria Credicope. O espaço permanece aberto para manifestações.

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