43 mentiras e um ‘irmãozão’: o elo com Vorcaro que Flávio Bolsonaro tenta esconder

  Levantamento identifica estratégias do candidato para se desvencilhar do Banco Master, entre negativas desmentidas por mensagens e promessa de transparência não cumprida 

Flávio Bolsonaro mentiu ao menos 43 vezes sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, segundo levantamento da agência de checagem Aos Fatos.

A reportagem mapeou declarações enganosas do senador e identificou pelo menos cinco estratégias de desinformação para tentar se desvencilhar do escândalo. Elas vão da alegação de desconhecimento à tentativa de desviar a atenção para outros envolvidos, passando pela negação de mensagens e por uma promessa de transparência que não foi cumprida.

Antes mesmo da segunda prisão de Vorcaro, em março deste ano, Flávio já tentava se blindar. Em entrevista à Jovem Pan, em fevereiro, disse que os escândalos de corrupção causavam repulsa e jogou a responsabilidade sobre o governo Lula. Embora as investigações e prisões tenham ocorrido na atual gestão, o caso envolve crimes cometidos desde antes do início do mandato.

A mentira virou até slogan de campanha: “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. Mas nem a parte sobre o Pix é verdadeira. Na mesma toada, o senador insistiu que o escândalo não chegava perto da direita e omitiu que diversos governos estaduais também perderam recursos previdenciários aplicados no banco, entre eles os do Rio de Janeiro, Amazonas e Amapá.

Quando a imprensa revelou, em março, que seu número estava na agenda telefônica de Vorcaro, Flávio negou conhecer o banqueiro. A negativa foi desmentida em maio, quando vieram à tona mensagens em que o senador o chama de “irmão” e “irmãozão”.

Em 13 de maio, o Intercept Brasil revelou que Flávio havia negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para bancar “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Questionado antes da publicação, o senador riu, chamou o repórter de “militante” e disse que era mentira. Naquela noite, precisou recuar e admitir, em vídeo, que as mensagens eram reais. Passou, então, a alegar que apenas buscava investimento privado para o filme do pai e que não havia irregularidade.

A explicação deixa questões centrais sem resposta. O Banco Master recebeu recursos de fundos previdenciários públicos, deixou um rombo estimado em R$ 8 bilhões no BRB e, segundo o INSS, fez descontos indevidos nos benefícios de milhares de aposentados. Esses fatos não comprovam, por si sós, o uso de dinheiro público no filme, mas há uma investigação específica, sob relatoria do ministro Flávio Dino, do STF, sobre possível desvio de emendas parlamentares para financiar a produção.

As próprias mensagens também contradizem a tentativa de minimizar a proximidade com Vorcaro. Na véspera da primeira prisão do banqueiro, Flávio escreveu: “Estou e estarei contigo sempre”.

Promessa furada e cortina de fumaça

Em 19 de maio, Flávio prometeu publicamente uma prestação de contas dos gastos do filme. Em junho, porém, a produtora apresentou uma perícia feita por um profissional contratado, que não teve acesso às despesas realizadas nos Estados Unidos — quase 70% do total. Mesmo com essa limitação, o senador passou a apresentar o documento como a prestação de contas prometida e a afirmar que ele demonstraria a ausência de dinheiro público no projeto.

Nas últimas semanas, a estratégia mudou de alvo: Flávio passou a repetir, inclusive no palanque do 7 de Setembro, que votar em Lula seria votar em Alexandre de Moraes. Segundo a análise do Aos Fatos, a associação integra a tentativa de deslocar o foco de sua relação com Vorcaro para o ministro do STF.

O ataque também é seletivo: a reportagem cita mensagens sobre contatos ou encontros de Vorcaro com outros ministros, entre eles André Mendonça e Nunes Marques, indicados por Jair Bolsonaro.

Outra contradição apareceu nesta semana. Flávio criticou Moraes por ter viajado em um avião ligado a Vorcaro, mas foi revelado que o próprio senador usou a mesma aeronave, em outro voo. Para se defender, atribuiu o avião a Willer Tomaz, embora Vorcaro detivesse um terço das cotas por meio da Prime You, empresa da qual era sócio.

Mais mentiras avulsas

Flávio também afirmou que a última transferência de Vorcaro ao filme teria ocorrido em maio de 2025. Um relatório do Coaf divulgado pela revista piauí, no entanto, mostrou um repasse em setembro daquele ano.

Em outro episódio, classificou como produzida por inteligência artificial uma foto sua ao lado de Sicário, homem apontado como mercenário ligado a Vorcaro, sem apresentar provas que sustentassem a alegação. O senador também diz apoiar uma CPI sobre o Banco Master, mas assinou apenas dois dos cinco pedidos de comissão que poderia subscrever, conforme levantamento publicado em maio e retomado pelo Aos Fatos.

Documentos da PF revelados nesta semana mostram ainda que Flávio tentou contato telefônico com Vorcaro nos quatro dias que antecederam a primeira prisão do banqueiro. A polícia suspeita que a troca de mensagens entre os dois tenha começado em dezembro de 2024.

Somadas, as evidências expõem uma sequência de negativas desmentidas por mensagens, registros financeiros e informações sobre encontros e viagens. A cada revelação, a versão de Flávio muda, enquanto novos documentos tornam mais difícil minimizar sua proximidade com Vorcaro.

Fonte: Rede PT de Comunicação

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